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  • Dra Luisa Polonio

E quando o trabalho adoece?

A Síndrome de Burnout ou Síndrome do Esgotamento Profissional é uma condição bastante prevalente na população brasileira.

Uma pesquisa feita pela Prof. Alexandrina Meleiro mostrou que 29% dos brasileiros estariam em um nível de estresse preocupante em relação a sua atividade profissional e 4% já apresentavam a Síndrome.


Algumas profissões apresentam o risco ainda maior para apresentar sintomas dessa condição, como os médicos, enfermeiros, policiais e bombeiros.

Muitas vezes, o trabalho tem papel central na vida do indivíduo, contribui para sua maneira de ser, atribui-lhe uma identidade, e torna-o útil dentro de seu contexto familiar e social. Por meio do trabalho, a pessoa adquire independência econômica, além de reconhecimento. O trabalho traz o desenvolvimento e exerce papel fundamental na formação, na aquisição de conhecimentos, habilidades motoras e afetivas relativas à profissão.

Com as recentes mudanças na economia global, como a maior insegurança no emprego e o aumento das demandas por conta de crises financeiras, a síndrome de burnout (síndrome do esgotamento profissional) possivelmente será um grande problema de saúde pública nos próximos anos. Por esse motivo a informação e a prevenção têm papéis fundamentais.

Os primeiros sinais:

1. Reação de alarme: caracterizada por manifestações agudas nas quais há a liberação de hormônios do estresse no sangue

2. Resistência: se a ação do estressor persistir, exige-se do organismo uma adaptação ao estresse continuado

3. Esgotamento: quando a ação do estressor ao qual o organismo se adaptou permanece por um período longo, a energia gerada é esgotada, há a volta das reações da primeira fase e pode ocorrer o colapso do organismo. Nesta fase, cada indivíduo tem a propensão de adoecer, de acordo com a própria constituição ou heranças genéticas.

A síndrome de burnout é composta por três dimensões:

Esgotamento emocional ou exaustão: tensão básica com sensações de sobre-esforço e de não poder dar mais de si em termos afetivos. Ela se produz como consequência das contínuas interações que o profissional deve manter com as pessoas e seus colegas de trabalho. O profissional sente a energia e os recursos emocionais de que dispõe se exaurirem como resultado do intenso contato diário com os problemas de outras pessoas

Despersonalização ou cinismo: desenvolvimento de sentimentos negativos e de atitudes que revelam descaso pelas convenções sociais com relação às pessoas para quem o profissional presta serviços. Há ausência de sensibilidade e objetificação das relações interpessoais, excessivo distanciamento das pessoas, silêncio, atitudes depreciativas e tentativas de culpar os outros pela própria frustração

Baixa realização pessoal ou ineficácia: representa a avaliação que o indivíduo realiza de seu desempenho ocupacional e pessoal. Reflete-se em perda de confiança em suas próprias realizações, com autoconceito negativo. A pessoa com essa síndrome mostra dúvidas em suas próprias capacidades, nervosismo e fadiga, dificuldade de se concentrar em tarefas e preocupação excessiva com as coisas do dia a dia. Além disso, tende a imaginar cenas negativas, perturbadoras ou assustadoras em relação ao futuro e apresenta depressão.

Os principais sintomas são estresse, insônia, perda de apetite, choro fácil, angústia, rigidez, negativismo, ceticismo, irritabilidade e depressão. Além da redução da eficácia profissional.

Sintomas físicos como dores musculares, dores de cabeça, cansaço, infecções, diabetes, manifestação de doenças autoimunes, labirintite também podem ser manifestações dessa condição.

Entusiasmo com a vida profissional e dedicação cedem lugar a:

· Frustração e raiva como resposta ao estresse pessoal, laboral e social

· Desilusão quanto às atividades; trabalha-se mecanicamente, embora ainda com e eficiência

· Diminuição da produtividade e da qualidade do trabalho

· Vulnerabilidade pessoal cada vez maior

· Múltiplos sintomas físicos: dores de cabeça, dores nas costas, hipertensão etc.

· Sintomas cognitivos: déficit de atenção e concentração

· Diminuição da capacidade de decisão e de assertividade

· Sintomas emocionais: irritabilidade, tristeza, depressão, ansiedade

· Piora dos sintomas até chegar a uma sensação de esvaziamento e de “não ligar mais”


A forma como encaramos a vida também pode ser um fator decisivo para a manifestação dessa condição, pessoas muito críticas, que vivem em uma luta constante contra o relógio para alcançar cada vez mais metas e que tem comportamentos hostis e apresentam muita irritabilidade, impaciência e rancor estão mais sujeitas a apresentarem esses sintomas. (A personalidade padrão A)

Características de comportamento da personalidade tipo A.

Tendência para procurar alcançar metas não bem definidas ou muito altas

Acentuada impulsão para competir

Desejo contínuo de ser reconhecido e de progredir

Envolvimento em múltiplas funções

Impossibilidade prática (falta de tempo) para terminar alguns empreendimentos

Preocupação física e mental

Incapacidade de relaxamento satisfatório, mesmo em épocas de folga

Insatisfação crônica com as realizações

Grau de ambição está sempre acima do que se obtém

Movimentos rápidos do corpo

Tensão facial

Entonação emotiva e explosiva na conversação normal

Mãos e dentes quase sempre cerrados

A médico psiquiatra ou médico do trabalho tem um importante papel de diagnosticar essa síndrome e o tratamento deve ocorrer de forma multidisciplinar. Com apoio clínico para cuidados com as manifestações física dessa síndrome, fundamentar uma investigação completa com exames complementares nesse ponto. E apoio psicológico para readequar a forma de lidar com o trabalho e até mesmo tratar os traumas relacionados a atividade profissional.

Também pode ter um papel preventivo identificando o estresse exagerado, auxiliando na identificação dos sintomas e orientando formas e recursos para melhora da resiliência dos profissionais.


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Fonte: PSIQUIATRIA Estudos Fundamentais, Coordenadora: Alexandrina Meleiro, Guanabara Koogan, 2018

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